Poeira e Porteira um diálogo com as incertezas do caminho

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Este ensaio é resultado de 60 dias de “andança” pelas estradas de chão de Minas Gerais, abrindo porteira e vendo a poeira baixar ao longe. O projeto Poeira e Porteira proporcionou a oportunidade de descobrir minhas origens culturais, escondidas por trás dos muitos morros das gerais. Aprender a cultivar no coração a hospitalidade que só o homem do campo tem. Visitar lugares surpreendentes, e encontrar espaço para a simplicidade que a vida rural convida.

A essência deste registro fotográfico teve como método a ausência completa de planejamento sobre o “onde” e “o que” fotografar. A única regra da andança fotográfica era escolher algumas cidades de Minas e pegar a estrada de chão mais próxima. Subir e descer pelos morros das gerais sem destino prévio; abrir a porteira da alma, e descobrir que apenas o destino poderia ter me levado até aquela imagem, pois ela já estava lá.

O mundo rural reservou-me grandes surpresas. Tive a oportunidade do encontro nas pessoas que simplesmente cruzaram meu caminho pelo acaso, mas, cujo dedo de prosa enriqueceu o horizonte de minha alma. Esta andança transportou-me para a dimensão caipira há muito esquecida. Entristeci-me ao contrastar este jeito mineiro autêntico com o abandono, consumido pela prisão do tempo e imposto pela modernidade. Encontrei no campo um sentido para o que parece obscuro. Com este trabalho fotográfico confundi-me na caipirice que une o urbano e o rural mineiros, entre o moderno e o tradicional. Nas diferentes formas de viver e aprender, tentei resgatar a riqueza transformada em abandono e dificuldade.

77 municípios compõem os cenários e os personagens desta primeira andança fotográfica. Neste projeto andei aproximadamente 12 mil quilômetros entre cidades mineiras e estradas de chão. Dentro do que me propus realizar visitei todas as regiões de Minas, para que um pouco de cada mineiro estivesse presente nesta obra. São várias Minas dentro de uma, porém, um sentimento comum transpassa todas as regiões, tornando-a única. Para dar início a esta andança tinha que primeiro conhecer o chão da minha casa.

No início desta andança percebi um campo diferente daquele que pensei encontrar. A luz elétrica levou consigo uma mudança profunda ao meio rural. Enquanto seus pais tinham a janela de suas casas e o morro como horizonte, seus filhos hoje têm como janela a televisão e um admirável mundo novo que ultrapassa os morros das fazendas. A roça se globalizou no modo de vestir, no corte de cabelo, nos sonhos para o futuro e também no desinteresse pelas tradições.

Este conflito evidente de geração marca um embate entre o tradicional e o novo. Diante deste dilema, tive que fazer uma opção por um olhar. Optei pelo registro da alma mineira: do tradicional, de uma roça resistente, de uma geração que busca manter as tradições e a forma antiga de cuidar das coisas, que não tem mais em seus filhos o interesse na manutenção de seus hábitos e cultura e se intitula a última geração a ver, viver e sentir a roça desta forma.

A alegria em resgatar memórias de uma roça que não existe mais foi substituída por um sentimento de dificuldade em perceber que esta roça está acabando; que as novas gerações não se interessam mais por ela e preferem, hoje, os sonhos da cidade grande e do horizonte além da porteira.

Conversei com cada personagem do livro. Ouvi suas histórias e me encantei com cada uma delas. Histórias de uma época e de uma roça pujante que vai se rendendo às casas fechadas, ao paiol vazio e suas terras sem vida. Mas, diante de toda esta adversidade, caminhar pelas estradas rurais trouxe uma experiência única para minha vida. Percebi que mesmo diante de tantas mudanças, um espírito habita o morro das gerais; um sentimento que caminhou comigo todo o tempo e me fez sentir parte. Um sentimento que sobreviveu às mudanças apresentadas pelo tempo e pela modernidade.

Andar solitário pelas estradas de chão de Minas, por incertos caminhos que se escondem entre as montanhas das Gerais, caminhos de horizonte curto e de certezas que não duram uma curva, levaram-me a uma reflexão profunda sobre a felicidade e o sentido da minha existência. O interior de Minas Gerais me conduziu, sem que eu percebesse, ao interior de mim mesmo, num diálogo entre as montanhas de minhas verdades e o horizonte de minha existência. As imagens deste ensaio fotográfico se juntam às linhas despretensiosas do livro, que revelam, como filosofia clandestina, uma reflexão sobre onde minha andança fotográfica me levou e de como estas reflexões contribuíram para o resultado final do trabalho: uma abstração instigada pela poeira da estrada, pelas montanhas de minhas verdades, e pela incerteza do caminho.

Marco Zuchi

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