O sino de Ubari e o coelho de Alice

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Construir uma história é aprender a escrever com a linha da própria vida, algo imensurável, sofrido, único e totalmente fora de controle. Não tenho clareza e entendimento dos motivos que me levam a querer ser dono de minhas escolhas e do meu tempo, sei apenas que certo dia alguém mordeu o fruto da vida e optamos por conhecer de perto o bem e o mal. Pode parecer engraçado, mas morder foi nossa primeira escolha.

Caminhos diversos e vidas comuns se encontram todos os dias de forma silenciosa e despercebida. Como linhas de um papel em branco em busca de significado somos pressionados pelo caminhar do relógio todos os dias. Pergunto-me: porque optamos por ser senhores do nosso tempo e de nossas escolhas? Daria tudo para vivenciar por um instante a ignorância racional de Adão e Eva antes da famigerada mordida no fruto, mas, infelizmente, o homem trocou o Éden pela segunda-feira, e ganhou um relógio de presente.

Mas, algo especial aconteceria comigo em Ubari. Dilemas de um Mineiro, que sentado no banco de uma praça, começa a perceber que a vida é uma linha de escrita fraca que sempre esteve fora do seu controle.

Em uma manhã fria de um domingo de julho lá estava eu pensando na vida. Vida absorvida pelo redemoinho da modernidade. Após uma hora e meia subindo uma serra por uma estrada de chão estreita e de curvas perigosas, deparo-me com a pacata e desacelerada Ubari. O choque de ritmos de vida foi inevitável, o que gerou estranheza imediata. Parei o meu carro na praça do pequeno lugarejo e aproveitei para observar as pessoas e suas rotinas. Atentei-me para o tocar do sino: uma badalada para cada hora do dia. Badaladas pausadas e nostálgicas ditavam o tempo e o ritmo daquele lugar.

Era bem cedo, mas as pessoas já estavam na porta de suas casas, donos de suas rotinas. Não consegui passar despercebido; de observador passei a ser observado de forma discreta e desconfiada por todos. Sentei no banco da praça cercado de imponentes árvores centenárias; testemunhas oculares da história do lugar, e abrigo de pássaros de cantos variados. Em frente à praça, uma típica venda do interior de Minas com balcão rústico e prateleiras de madeira nobre que escondiam mercadorias esquecidas no tempo. Ponto de encontro de goles, e causos.

Chapéu de palha na cabeça e mão para trás, seguiam dois homens a caminhar em ritmo lento e prosa animada. Com típico bigode fino e pente no bolso, um deles pega o fumo, a palha e começa a preparar o seu cigarro. Em seu cavalo, de trotar sonoro e ritmado, outro homem se aproxima e grita firme: Compadre! Grito de um lado, resposta entusiasmada de outro. Percebi que a relação com o tempo daquelas pessoas era marcada por um ritmo bem diferente do meu. Olhei para a Igreja e fiquei pensando: será que eles só lembram da hora quando o sino toca?

Aquelas pessoas não estavam ansiosas nem afobadas. Paravam, contavam suas histórias, prestavam atenção umas nas outras, varriam suas calçadas, esperavam o leite chegar de charrete, e o padeiro passar com o balaio de pão na porta de suas casas. Senti-me como o coelho de Alice: estou atrasado! Não tenho tempo! Frases que uso dia após dia não combinavam com Ubari. Logo pensei: quanto vale o tempo de uma pessoa que não tem tempo?

A sensação era de que o tempo no lugarejo passava devagar, mas, em Ubari ele era contado como em qualquer lugar do mundo. Convivemos com ele todos os dias e damos a importância errada para o seu significado; pelo menos em boa parte da nossa existência, esquecemos que existe um fim. Do banco, começo a observar que a rotina do lugarejo tinha muito a me ensinar sobre o tempo e sobre a vida acelerada que levo. Viver é uma equação, onde, precisamos optar por ações acertadas no pouco tempo que temos.

Sentado naquela praça refleti profundamente sobre o acelerar do meu tempo, e percebi como ele, implacavelmente, também caminha para a sua “finitude”. Triste ritmo acelerado que cega e ludibria. Diziam que de dois mil não iríamos passar. Quantos não chegaram a dois mil e quantos não estarão aqui hoje, pensei comigo: o fim é o que menos importa nesta hora. Se o amanhã não nos pertence então para que apostar na posteridade e se vangloriar dela.

Final de tarde em Ubari, e como há muito tempo não acontecia comigo eu senti o tempo passar. O sino tocou novamente; já tinha me esquecido dele. Hora de levantar do banco, descer a serra e voltar para o redemoinho da vida. Como coelhos de Alice seguimos afobados em nossas rotinas com um grande relógio pendurado no pescoço.

Marco Zuchi

6 comentários Adicione o seu

  1. Juju-paçoca disse:

    Adoro suas reflexões , acho super inspiradoras 😄!

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  2. Marcia barros de Magalhães disse:

    Belíssimo texto! Ubari está mto próximo da minha cidade Bras Pires. E é deste modo que lembro da vida lá. Pacata e calma. O tempo passa de uma forma diferente. Parabéns Marco Zuchi.

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  3. Adriana disse:

    Parabéns! Lindo trabalho! Alimento para as almas sensíveis em época de tanta aridez! Virei sempre aqui te visitar! 🙏🏻

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  4. RITA DE CASSIA PIAZZI disse:

    Lindo texto! Me deu vontade de viver em Ubari!

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  5. Eduarda Guerra disse:

    Querido professor,
    Belas palavras! O texto toca nosso coração como se estivéssemos vivenciando as suas experêcias em Ubari. Também gostei muito das fotos! Parabéns!

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  6. Ivone Gaudereto Carvalho disse:

    Parabéns Marco … Quero falar tanta coisa…Só sei dizer que ,plagiando uns de seus alunos,deu vontade de morar em Ubari.Suas fotos falam por si só ,mas o seu texto é perfeito.Amei.

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