Como rochas que seguram o mar

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Velho e simples faroleiro, cabelos brancos, ombros curvados e pele queimada; homem de entrega fiel ao prazer de sua labuta na Ilha do Casco. De pouca fala e dono de uma introspecção profunda, Benjamim sempre achou que viver no farol o protegeria do mundo.  Acreditou na solidão para abrigar o que considerava virtude, e sem perceber confundiu ser ele o próprio farol.

Mentir para si é armadilha da alma, é gaiola invisível que aprisiona desprecavido, é vaidade de quem sem perceber, sempre se sentiu dono do mar. Assim, durante anos rotineiramente, Benjamim cuidou bem do seu farol, sem falhar um único dia se apresentou ao seu cárcere, foi fiel aos compromissos da sua rotina entregando-se durante anos a solitária função de esperar seus barcos riscarem o mar.

Homem de bem, orgulhava-se da sua altruísta missão de guiar solitariamente barcos pela escuridão. Naquele manhã acordara diferente, pensativo; a cama pedira uns minutos a mais olhando para o teto. Inquietação é desavença, é vida tirando as verdades do eixo. Benjamim não compreendia como sua generosidade alimentara sua vaidade por tanto tempo, mas, a vida naquela manhã estava pronta para lhe ensinar a verdade sobre isto. 

Construímos gaiolas dentro de nós para aprisionar pássaros que não sabem voar. Criamos mundos e inventamos caminhos sem precedentes para justificar o que não conseguimos alcançar. Mergulho de alma muitas vezes é embarcação sem vela, histórias que repetimos para nós mesmos na intensão de acreditar que a nossa versão de bondade é verdadeira. Benjamim naquela manhã iria ver sua verdade frágil se despedaçar como uma embarcação no encontro das rochas.

Diariamente, antes de iniciar seus trabalhos, Benjamim pegava seu café quente no fogareiro e, enquanto a fumaça e o calor da xícara esmaltada aqueciam as suas mãos, caminhava até a beira da ilha para olhar o mar. Gostava de escutar as ondas baterem com sua peculiar violência sobre as pedras, mas, seu olhar naquele dia se perdeu no mar como quem via a vida passar em pensamento.

A força do barulho das ondas o inquietou, e o silêncio típico da sua alma foi substituído pelo som perturbador que a sabedoria faz quando pede para desembarcar na alma da gente. Barulho de alma é eco forte que busca saída para expandir.

O faroleiro, desequilibrado, firmou seus pés sobre a rocha na tentativa de não cair no chão. Esforço inútil, Benjamim por um instante não sentiu a rocha sobre seus pés, e caiu sentado. Algo estava se revelando para ele naquele instante. Quando a nossa verdade sai do eixo, a sabedoria desembarca com força, desequilibra e joga no chão . E ali, sozinho, sentado diante a imensidão do mar e do profundo da sua alma, Benjamim, desesperadamente tentava avaliar se sua vida tinha valido à pena.

Ele sempre manteve seus olhos encantados pelo farol: lindo, imponente, altivo e senhor do mar, dono de todo mérito diante dos barcos que sempre passaram por lá.  Diante toda aquela imensidão de alma,  ao longe era apenas o farol que Benjamim conseguia avistar no meio do mar da sua existência.  Todas as suas noites incansáveis de trabalho duro eram para ele ato de resignação humana, de generosidade de um homem que estava disposto a se sacrificar para ser a luz que iluminava aquela rota; como o farol, Benjamim achava-se único e indispensável naquela função.  Assim, o faroleiro que só tinha olhos para o farol  se confundiu  com ele, a ponto de esquecer onde seus pés firmavam. 

Pela primeira vez Benjamim deu conta que as rochas que formavam aquela pequena Ilha do Casco sustentaram a sua vida e o farol por anos. Segurança diante de um mar enfurecido. Assim, angustiado, levantou e começou a caminhar pela ilha, arrastando sua velha bota desgastada e de cadarço ruído pelo chão. Solitário se pôs a andar de um lado para o outro de forma aflita enquanto a sabedoria insistia em desembarcar. Enquanto desenhava o chão com os pés para acalmar sua alma, sua história corria em seus pensamentos em relance. 

Quantos barcos meu farol guiou, quantas sirenes altivas reconheciam nele direção para mares agitados. Quanta vaidade em um só pensamento gritou por dentro pela primeira vez. Alma as vezes precisa ser dedo que aponta. Respirou fundo, olhou para a ilha com calma pela primeira vez; agachou, pegou um punhado de terra na mão e deixou escorrer entre os dedos a sua história.

Ninguém lembrou de você enquanto sustentava o farol no alto durante todos estes anos começou a falar sozinho, você  nos manteve longe dos perigos do mar sem a necessidade de se fazer notar. Benjamim deixou suas lágrimas se encontrarem com a chão enquanto sua alma se esvaziava lentamente da sua vaidade. Sabedoria em forma de lágrima liberta.  Anos a finco você esteve sustentando sobre os seus pés toda a luz, cumpriu sua função de ser chão, nunca exigiu reconhecimento e lugar de relevância no seu enfrentamento com o mar.

O pensamento do faroleiro foi longe, tão longe que percebeu, aos 83 anos, que algo muito especial estava lhe trazendo sabedoria. Feliz o homem que está pronto para ouvir quando o professor chega. Naquele dia o café teve tempo de se esfriar enquanto o faroleiro andava de um lado para o outro como quem pela primeira vez sentia a rocha debaixo dos seus pés. Lá estava o farol, o faroleiro e a rocha habitando seus pensamentos mais íntimos.

Aquilo que considerava sua grande virtude desmoronou aos seus olhos, em um instante diante daquele cenário percebeu na rocha generosidade. Percebeu como ela sustentava o farol de pé, e os protegia do mar. Encontrou na silenciosa dedicação da rocha a virtude que sempre achou ser sua, de quem cuida sem pedir nada em troca. Percebeu o quanto viveu tão próximo e tão distante desta verdade.

Todos os dias o faroleiro entrava no farol com a única intensão de fazer o bem, mas confessou neste dia, diante da rocha, que sempre esperava no reconhecimento do som dos barcos a sua recompensa. Buscava a perfeição fora, porque não encontrava dentro de si mesmo. Iludiu-se por anos encantado pela luz do farol.  Benjamim enxergou o que não possuía dentro, e o que, com certeza, não encontraria fora.

Entendeu que era bondoso, mas não generoso. A bondade é interesseira quando precisa do “eu” para ser completa; assim, o Benjamim percebeu que sua vaidade o transformara em farol sem luz e o quanto isso o distanciou da virtude que sempre achou proteger na ilha; percebeu que sua mão direita fazia questão de conviver com a esquerda em seus ocultos interesses de agradar as embarcações em busca de elogios, reconhecimento e afagos. Toda a nossa bondade quando trazida à luz é contestável, e assim, anos a finco, o faroleiro e o Farol se orgulharam de ter sido a direção sobre aquelas águas.

Mesmo passando praticamente uma vida inteira sozinho, sentiu-se egoísta naquele instante; estava com os pés sobre a generosidade da rocha, e por anos foi incapaz de reconhecer isto. Descobriu uma distância enorme entre ser luz de si mesmo e ser rocha. A verdadeira generosidade vai além do interesse. O egoísmo habitou seu coração por anos e sutilmente não se fez perceber. Benjamim viu na rocha a lucidez que faltava para descobrir o verdadeiro sentido que buscava para sua vida.

Viveu confortado sobre aquela rocha por anos, vendo o ir e vir dos barcos lá do alto do farol; e esquecera de agradecer tamanha dedicação de quem o sustentava. Benjamim, sentiu-se luz por anos, mas, naquele momento a sabedoria desembarcou e impactou o seu coração, e ao olhar para o mar novamente, o faroleiro verificou que toda a sua bondade sempre teve o preço caro da sua vaidade.

O farol era a sua posse, que sobre os seus cuidados dependia do reconhecimento para se sentir completo e o faroleiro não era livre em si mesmo, pois vivia em um farol sem chão. Mesmo servindo àqueles que de passagem estavam, o seu trabalho nunca conseguiu o levar até o outro.

Benjamim ainda exerceu sua função por mais alguns anos antes de adoecer; feliz com sua descoberta buscou como a rocha fazer o serviço que lhe cabia, e assim viveu seus dias vindouros na Ilha do Casco de forma diferente. Reconheceu na generosidade a luz que não precisa de reconhecimento; e que amor verdadeiro nunca aparece quando estamos cheios de nós mesmos.

Dizem que o faroleiro descansa aos pés da ilha, e fez questão de deixar riscado na parede do farol antes de morrer a sua resposta para o sentido da vida: “Agora sou parte desta rocha que segura o mar, pois, o verdadeiro sentido da vida  é sustentar a luz que chega até outro” .

                                                                                                                                                                                       Marco Zuchi

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