Como rochas que seguram o mar

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Esta é a historia de um velho faroleiro, cabelos brancos, ombros curvados e pele queimada; homem que se entregou diariamente ao sabor da labuta na Ilha do Casco. De pouca fala e dono de uma introspecção profunda, sempre achou que viver no farol o protegeria do mundo. Apostou na solidão para abrigar o que considerava virtude. Mas, diante das armadilhas da vida, sem perceber, o velho faroleiro confundiu ser ele o próprio farol.

Mentiras que contamos para nós mesmos são como prisões para alma, grades alicerçadas no poder e na vaidade de quem, mesmo sem perceber, sempre se sentiu dono do mar.

Durante anos, rotineiramente, o faroleiro cuidou do seu farol, sem falhar um dia  entregou-se a sua solitária função. Homem de bem, orgulhava-se de sua altruísta missão de guiar barcos pela escuridão. Não esperava que a verdade que alimentou sua vida por anos seria confrontada e se despedaçaria como uma embarcação no encontro das rochas.

Construímos gaiolas dentro de nós para aprisionar pássaros que não sabem voar. Criamos mundos e inventamos caminhos sem precedentes para justificar o que não conseguimos entender. Histórias que repetimos na intensão de acreditar em nossa própria versão sobre como nos tornarmos homens de bem.

Diariamente, antes de iniciar seus trabalhos, pegava seu café quente no fogareiro e, enquanto a fumaça e o calor da xícara esmaltada aqueciam as suas mãos, caminhava até a beira da ilha para olhar o mar e escutar as ondas baterem com sua violência peculiar sobre as pedras. Seu olhar se perdia no mar como quem via a vida passar em pensamento.

A força do barulho das ondas naquele dia o inquietou e o silêncio típico da sua alma foi substituído pelo som perturbador de quem estava prestes a responder a última pergunta que cerca a vida de um homem. O faroleiro, em desequilíbrio, firmou seus pés sobre a rocha na tentativa de não cair no chão; algo estava prestes a ser revelado. E ali, sozinho diante a imensidão do mar e do profundo da sua alma, tentava, desesperadamente, avaliar se sua vida tinha valido à pena.

Sempre manteve seus olhos encantados pelo farol: lindo, imponente, altivo e senhor do mar. Dono de todo mérito diante dos barcos que passaram por lá durante anos a finco. Ao longe era ele que avistávamos no meio do mar. Achou que todas as suas noites incansáveis de trabalho eram um ato de resignação humana, de generosidade de um homem que estava disposto a se sacrificar e ser a luz que iluminava aquela rota; como o farol, achava-se único e indispensável naquela função. Assim, o faroleiro só tinha olhos para o Farol e a cada dia que passava se confundia mais com ele, a ponto de esquecer onde seus pés pisavam.

Deu-se conta de que as rochas que formavam aquela pequena Ilha do Casco sustentaram a sua vida e o farol por anos. Proteção e segurança diante de um mar enfurecido. Assim, angustiado, arrastou sua velha bota desgastada e de cadarço ruído pelo chão da ilha; solitário se pôs a andar de um lado para o outro de forma aflita, e enquanto tocava o chão, sua história corria em seus pensamentos.

Quantos barcos meu farol guiou, quantas sirenes altivas reconheciam nele seu guiar por mares agitados. Faziam festa e reverência ao grande farol. Ninguém se lembrava da rocha que sustentava a luz no alto, longe dos perigos do mar. Entrava ano e saía ano, lá estava a rocha a sustentar sobre os seus pés toda a luz, sem lugar de destaque, cumpria o que cabia a sua função de ser chão, sem exigir reconhecimento e lugar de relevância no seu enfrentamento com o mar.

O pensamento do faroleiro foi longe, tão longe que percebeu, aos 83 anos, que algo muito especial lhe traria conhecimento. Feliz o homem que está pronto para ouvir quando a vida quer ensinar. Naquele dia o café teve tempo de se esfriar enquanto o faroleiro andava de um lado para o outro. Pela primeira vez sentia a ilha debaixo dos seus pés. Lá estava o farol, o faroleiro e a rocha habitando seus pensamentos mais íntimos.

Aquilo que sempre considerara sua grande virtude se viu desmoronar aos seus olhos, e em um instante diante daquele cenário percebeu na rocha a verdadeira generosidade. Percebeu como ela sustentava o farol de pé, e os protegia do mar. Encontrou na dedicação silenciosa da rocha a virtude que sempre achou ser sua, de quem cuida sem pedir nada em troca. Percebeu o quanto viveu tão próximo e tão distante desta virtude.

Todos os dias o faroleiro entrava no farol com a única intensão de fazer o bem, mas confessou neste dia, diante da rocha, que sempre esperava no reconhecimento do som dos barcos a sua recompensa. Buscava a perfeição fora, porque não encontrava dentro de si mesmo. Iludiu-se por anos por se encantar pela luz do farol. Enxergou o que não possuía dentro, e o que, com certeza, não encontraria fora.

Entendeu que era bondoso, mas não generoso. A bondade é interesseira quando precisa do “eu” para ser completa; assim, o faroleiro percebeu que sua vaidade o transformara em farol sem luz e o quanto isso o distanciou da virtude que sempre achou possuir; percebeu que sua mão direita fazia questão de conviver com a esquerda em seus ocultos interesses de agradar as embarcações em busca de elogios, reconhecimento e afagos. Toda a nossa bondade quando trazida à luz é contestável, e assim, anos a finco, o faroleiro e o Farol se orgulharam de ter sido a direção sobre aquelas águas.

Mesmo passando praticamente sua vida inteira sozinho, sentiu-se egoísta; estava com os pés sobre a generosidade da rocha, e por anos foi incapaz de reconhecer isto. Descobriu uma distância enorme entre ser luz de si mesmo e ser rocha. A verdadeira generosidade vai além do interesse. O egoísmo sempre habitou seu coração e viu na rocha a lucidez que faltava para descobrir o verdadeiro sentido da generosidade.

Viveu confortado sobre aquela rocha por anos, vendo o ir e vir dos barcos lá do alto do farol; e esquecera de agradecer tamanha dedicação de quem o sustentava. Sentiu-se luz por anos, e naquele momento, ali ao olhar para o mar novamente, o faroleiro verificou que toda a sua bondade sempre teve o preço da sua vaidade.

O farol era a sua posse, que sobre os seus cuidados dependia do reconhecimento para se sentir completo. O faroleiro não era livre em si mesmo, vivia num farol sem chão. Mesmo servindo àqueles que de passagem estavam, o seu trabalho nunca conseguiu o levar até o outro.

Este homem ainda exerceu sua função por mais alguns generosos anos antes de adoecer; feliz com sua descoberta buscou como a rocha fazer o serviço que lhe cabia, e assim viveu seus dias vindouros na Ilha do Casco de forma diferente. Reconheceu na generosidade a luz que não precisa de reconhecimento; e que amor verdadeiro nunca aparece quando estamos cheios de nós mesmos.

Dizem que o faroleiro descansa aos pés da ilha,  e  deixa  como resposta, ao seu último   questionamento, as linhas riscadas  na parede do farol: “Agora sou parte desta rocha que segura o mar, pois, a generosidade se encontra naqueles que, silenciando, se transformam na verdadeira luz”.

                                                                                                                                          Marco Zuchi

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