No princípio era um verso

Nasci na tapera da Candonga e passei minha infância tentando falar com Deus. Ainda guardo na memória o cheiro de café revirado no terreiro, e as sementes grudando debaixo dos meus pés. Nesta época eu ainda não entendia que Deus amava mesmo era me escrever poemas. Precisei crescer para compreender que os versos precisam do silêncio de quem os escreve para dar firmamento às respostas de quem os lê. Em vão indaguei por diversas vezes a Deus sobre as circunstâncias da minha vida; gritei com Ele ao longe daquela serra para fazer-me ouvir. Por várias vezes, olhei para dentro de mim e me satisfiz momentaneamente, e, em vão, me revoltei por anos. Era novo para compreender que palavras erradas, quando soltas, rasuram as linhas da nossa vida. Sabedoria mesmo é não as dizer.

Os galhos secos e empoeirados ultrapassavam a cerca da fazenda, como quem não respeitava as regras da propriedade; assim como eles, eu cresci entre a tapera e a casa grande, tendo debaixo dos pés apenas o chão de terra. Menino de pés descalços e roupa puída, cresci correndo de um lado para outro em disparada, levantando poeira pelas estradas de chão da fazenda do Moinho. Nesta época eu achava que conhecia todos os detalhes do caminho, como alguém que tem pressa para pegar o atalho e chegar a algum lugar; ou fugir dele, não sei ao certo.

Terra cansada, pasto machucado, roça de café com dificuldade para vingar e mãos calejadas. Assim os meus dias passaram dolorosamente pela minha infância, vendo a esperança ser maltratada pela dificuldade. Desde criança minha vida era cumprir os afazeres de gente grande, e ajudar meu pai na lida diária. Nossa única forma de sobrevivência era transformar em vida aquele chão cansado, que precisava da nossa dedicação no arado.

Homem trabalhador foi meu pai, seu Pedro das Candongas como ele era conhecido. Nunca vi resignação igual no mundo, e olha que a vida foi generosa comigo me tirando desta terra infértil e me levando a lugares cuja distância jamais um dia eu imaginei chegar. Nunca vi meu pai reclamar da sua dura vida; nunca murmurou seu sofrimento comigo, e olha que a vida teimou em não ser generosa com ele e com minha mãe. A camisa branca puída entreaberta escondia sua pele queimada de sol. Suas costelas marcavam seu peito moreno enrugado, lembranças que ficaram na minha memória. Só vi a face de meu pai se entristecer um único dia, quando eu lhe perguntei se Deus existe.

Minha mãe conseguia manter-se doce diante de tanto amargor que a vida lhe impusera. Me acordava todo dia bem cedo para eu ajudar meu pai no curral. Ainda sinto sua mão nos meus cabelos. Cabia a mim amarrar os bezerros no pé das vacas, enquanto meu pai tirava o leite que elas, por teimosia, insistiam em produzir. Ainda hoje escuto o som do leite batendo no balde. Leite fresco para o café da casa grande primeiro, dizia meu pai enquanto minha boca enchia d`agua. Depois, eu corria em disparada tocando os bois do patrão que se perdiam no campo em busca de um pasto que prestasse. Foi quando diante aquela imensidão de montanhas eu parei, olhei para o céu e pedi a Deus que meu coração não secasse como a vida naquele pasto, mas, eu não escutei Deus falar comigo.

Tempos difíceis foram aqueles de minha infância, anos de estiagem trouxeram muito sofrimento para quem vivia no campo. Queria eu entender, porque eu não podia ser como o filho do meu patrão. Porque cabia a mim tamanho sofrimento e tanta obrigação se para o filho do doutor sobrava muito afago e diversão, garantidos pela mesa farta de um pai tão importante na cidade. O silêncio de Deus virou revolta, e eu cresci achando que Ele não gostava de falar comigo. Sempre calado me senti só por anos.

Depois de um dia duro de trabalho, em que passei puxando lona debaixo do cafezal, pois era obrigação do meu pai separar o café que prestava do que não prestava, já cansado em casa, enquanto esticava o cobertor de peleja sobre minha cama, eu encontrei coragem para falar com Deus novamente. Deus se você dividiu o mundo entre os que vieram para servir e os que são servidos de que lado o Senhor está? As perguntas carregadas de sentimentos adormeciam com o sono do menino, porém acordavam sem as respostas de que ele tanto precisava, e assim, cada dia eu me via mais distante de Deus.

Meus pensamentos iam longe enquanto trabalhava no arado ao lado do meu pai. Distraído, meus pensamentos se silenciavam a ponto de escutar o som do barulho da terra sendo cortada. Sobre minha pergunta a Deus na noite anterior, meu coração não se aquietava. Cresci alimentando esta revolta dentro de mim. Enquanto isso meu pai, homem de poucas palavras, não tirava os olhos do outro lado do campo enquanto puxava o arado. Gostava de me dizer: filho, para boa plantação além de boa semente o arado tem que seguir reto e para isso, não podemos olhar para o lado e nem nos distrair, dizia ele com voz ofegante.

Deus deve ser como o dono da fazenda, eu pensava com meus botões; os conselhos do meu pai, não conseguiam ser maior que a minha revolta naquela época. A vida de caseiro não é vida digna de uma pessoa tão poderosa, Deus não pode levar a vida como a nossa, eu repetia para mim mesmo todo dia. O suor escorria na testa do meu pai e sua camisa ficava encharcada enquanto ele puxava o arado. Lá da varanda o fazendeiro dava suas ordens. Com suas botas reluzentes, firmadas no parapeito do sobrado, ele soprava a fumaça do seu charuto enquanto levantava uma de suas sobrancelhas para afirmar suas verdades. Quero ser como o Doutor Leôncio um dia! Apenas pensei comigo com medo de magoar meu pai. Este sim conhece de tudo sem nunca ter sofrido com a mão no arado. Diante daquela cena perguntei novamente a Deus, em pensamento, quem teria sido criado a sua semelhança, meu pai ou o fazendeiro?

Cresci, sem obter as respostas para minha arrogância, e ela foi tomando conta do meu coração. Da vida da minha infância só guardei a vontade de sair em disparada. Assim, fiz da minha vida uma corrida em busca do meu sucesso, e ela foi generosa comigo. Decidi não pegar mais no arado, e busquei todas as oportunidades para sair daquela condição. Tive a oportunidade de estudar na recente escola criada no distrito; duas horas de caminhada me separavam diariamente da chance de, um dia, deixar de ser o filho do caseiro para sonhar os sonhos do filho do fazendeiro. E a vida foi generosa, cuidou de mim em todos os detalhes.

Diante do silêncio de Deus, me calei também; meu alvo não era mais traçado pelo arado, mas pelas certezas que pensei ter sobre as coisas. De aluno exemplar, ganhei uma bolsa para estudar na cidade; formei-me em direito enquanto trabalhava como ajudante na venda como guarda livros. A vida me fez doutor, e mais do que isso, me fez poeta de renome na cidade, e as minhas linhas eram agora o único caminho capaz de esvaziar minha mente de tanto passado e de tanto futuro; capaz de trazer paz para meu coração. Quanto mais eu escrevia, mais encontrava as respostas que tanto procurava.

A poesia foi o único caminho que encontrei para dar vida ao homem que eu queria ser, eu precisava explicar meu grande vazio para o mundo. Sentia que faltava algo no que escrevia como quem escreve cartas sem respostas. Comecei a escrever querendo sentir a mão de Deus desenhar com a minha. Amar a Deus é estar em conformidade com seus desejos para nós; acho que desde criança relutei muito quanto a isso, não queria ser a pedra que Deus jogou no lago para observar suas ondas dissiparem até acalmar, queria ser dono do meu destino. Quis ganhar o mundo, mas não conhecia o caminho de casa.

Foi quando percebi Deus naquilo tudo que fazia, como se ele olhasse minha vida em poesia e verso. Olhei para Deus como um poeta, a fazer da matéria prima da minha vida seus versos. Vi beleza na dificuldade da minha infância, amparo nas desilusões, fortaleza nas amarguras e beleza no servir. Tive a sensação de que Deus, em seu silêncio, capturou momentos especiais da minha vida e transformou em poemas minhas boas lembranças. Sem perceber, enquanto vivia, Deus transformava minhas memórias em versos prontos dentro de mim.

Eu precisava mergulhar nas minhas memórias para reencontrar com Deus. Num dia destes, sentado em minha escrivaninha, resolvi fazer um poema sobre a minha infância. Parei tudo que estava fazendo e permiti que aquele garoto espalhando o café no terreiro viesse ao meu encontro novamente. Assim, deixei minha infância inundar meu coração e a lembrança dar lugar para minha poesia. Foi quando eu me deparei com o Deus da minha infância e com as perguntas que fizera sobre quem era Ele, de que lado estava e porque não me respondia.

As linhas levaram-me novamente para minha casa, reviveram minha infância, mostraram o homem que era meu pai e a mulher que era minha mãe. A poesia viu beleza em tudo que eu tinha e não prestava atenção, e nem sequer dava valor. A poesia me levou até meus heróis, minhas angústias e minhas respostas. Foi quando, pela primeira vez, eu entendi como Deus falava comigo. Enxerguei nossa vida como um verso, daqueles que descrevem nossas linhas e cuja matéria prima é nossa vida. Descobri que Deus amava me escrever poemas. Lembrei-me do meu pai na hora, e de como eu queria estar com ele para contar tudo isso.

Uma saudade de casa tomou conta de mim, peguei minhas coisas e sai em disparada rua afora para pegar o primeiro trem para minha terra natal. Chegando, de longe eu avistei o casebre de meus pais, lá no pé da serra. Estava da mesma forma que deixara quando fui embora ainda jovem sem sequer olhar para trás. Corri para dentro de casa; o cheiro do fogão de lenha, e as paredes sujas do fogo da lamparina encheram meu coração de lembrança. Olhar a luz entrar por aquele corredor de chão de terra batida e apontar para o quarto do meu pai, já velho, calejado pela luta, e deitado naquela cama me levaram ao pranto.

Aproximei-me dele, peguei em sua mão doída e entreguei meu diploma, disse para ele que agora ele tinha um filho Doutor, que a vida tinha me feito um homem de sucesso e que ganhava a vida escrevendo poemas. Ele sorriu como quem fica feliz em ver seu filho realizado. Mas, esta não era a sua principal preocupação comigo. Com voz fraca, ele me perguntou: Meu filho Doutor já superou sua amargura? Sim pai, respondi para ele: Deus não só ouvia minhas perguntas quando criança, como respondia todas elas com os exemplos da sua vida. Eu é que não conseguia entender, pois, naquela época ainda não sabia ler seus poemas. O pai, como quem não se aguentava em contentamento, perguntou: meu filho, conte para seu pai como é falar com Deus?

Encontrei-me ali menino novamente, diante da cama do meu pai. Pela janela olhei para o céu e busquei a resposta que daria para ele ali deitado. Não poderia ser diferente, a resposta veio em forma de verso sobre a sua vida e a minha infância naquela casa, que recitei para ele enquanto relembrávamos as nossas histórias. Versos que falavam dele e de como ele foi importante para todos nós, de como sua vida teve tanto significado para Deus. Estava feliz em ter voltado para casa. Peguei na sua mão, olhei para minha mãe sentada na cadeira ao lado, e disse ao pé do seu ouvido: o que tenho eu a te dizer sobre como é falar com Deus meu pai, se tu és, na minha vida, o maior poema que Ele me deu.

Marco Zuchi

1 comentário Adicione o seu

  1. RITA DE CASSIA PIAZZI disse:

    Que lindo meu amigo escrevinhador! Sinto um orgulho o danado de você ! Parabéns! ! !

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